GRUPOS MONETIZAM DESINFORMAÇÃO SOBRE AUTISMO E VENDEM SUBSTÂNCIA TÓXICA A QUEM BUSCA CURA

Investigação conjunta de quatro veículos de Brasil, Chile, Colômbia e México revela como comunidades online são usadas como plataforma de comércio de falsos medicamentos, cursos e consultas

Roberta encontrou em uma comunidade online a promessa de cura de seu filho de cinco anos, diagnosticado com autismo. Seguindo orientações, ela deu ao menino algumas doses de dióxido de cloro, e também ingeriu o mesmo líquido, para tratar outros problemas de saúde. O que os dois tomaram como medicamento alternativo é, na verdade, uma substância tóxica e corrosiva, usada na fabricação de produtos de limpeza. Após alguns dias, o efeito era devastador.

“Pensei que íamos morrer”, relatou a mãe, no grupo de mensagens que a aconselhava. Mas ela não se queixava nem admitia ter sido iludida – queria saber o que tinha feito de errado. Outros usuários e administradores do grupo, que lucram com a venda do falso medicamento, a incentivaram a voltar a intoxicar a criança, com a falsa alegação de que isso iria curá-la. O “tratamento” tinha duração de três meses.

Mãe relata ter ido para o hospital com o filho após ambos tomarem dióxido de cloro. Foto: Reprodução/Telegram

O nome de Roberta é fictício, para proteger sua identidade, mas todo o resto é verdade. A troca de mensagens aconteceu no aplicativo Telegram, e está longe de ser um caso isolado. A venda de “kits sanitizantes” para tratamento ou até cura de Transtorno do Espectro Autista (TEA) ocorre também em outras redes. Procurado, o Telegram disse que atua na remoção de conteúdos nocivos.

A monetização da desinformação não se limita aos falsos medicamentos, vendidos por até R$ 700. Influenciadores do autismo comercializam livros, cursos e consultorias individuais. Um negócio lucrativo que prolifera graças à leniência de plataformas online e à baixa capacidade de fiscalização do poder público. E que ultrapassa fronteiras, como revela uma investigação jornalística conjunta de veículos do Brasil (Estadão Verifica), da Colômbia (Colombiacheck), do Chile (Mala Espina) e do México (Verificado), todos integrantes do LatamChequea, rede de checadores de fatos da América Latina.

A reportagem foi elaborada no âmbito do projeto “Promover informações confiáveis e combater a desinformação na América Latina”, financiado pela União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva dos autores e não reflete necessariamente os pontos de vista da União Europeia. É um texto longo, mas ao final você vai entender quase tudo sobre os métodos dos desinformantes, os riscos para a saúde das vítimas e as falhas na fiscalização.

Segundo a psiquiatria, o autismo é um transtorno neurológico que leva a dificuldades na comunicação e na interação social. Para algumas correntes da psicanálise que se dedicam ao desenvolvimento infantil, trata-se de um quadro psíquico. Não há um marcador biológico único que permita diagnósticos laboratoriais. Embora se observe frequência maior de casos em pessoas com determinadas características genéticas, a hereditariedade e a existência de uma causa orgânica ainda são tema de debate.

Para a medicina, não existe cura. Psicanalistas consideram que a infância é um período de estruturação do sujeito psíquico, e que diagnósticos fechados ou irreversíveis não devem ser a regra nessa idade. Mas em algo as duas correntes estão de acordo: não existe medicamento ou substância química que cure o autismo ou trate suas características centrais. Esse vácuo favorece a ação de desinformadores que promovem falsas causas e falsas curas, em muitos casos com o objetivo de ganhar dinheiro.

A investigação conjunta dos checadores foi feita entre julho e novembro, a partir de mensagens coletadas no Telegram, nos últimos dez anos, por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (Autistas Brasil).

Influenciadores do autismo comercializam substâncias, livros, cursos e consultorias individuais nas redes sociais. Foto: LatamChequea

A reportagem teve impacto antes mesmo de sua publicação. Depois que o Estadão Verifica questionou o governo brasileiro sobre a propagação de desinformação sobre saúde no Telegram, a Advocacia-Geral da União (AGU) apresentou um pedido formal à empresa para remover grupos e canais que vendiam ilegalmente dióxido de cloro como suposta cura para doenças, do câncer ao autismo. Segundo o governo, 30 comunidades foram removidas em 19 de setembro. Grupos monitorados pelo Verifica, porém, continuam ativos.

No banco de dados da FGV estão cerca de 60 milhões de postagens publicadas em grupos do Telegram considerados conspiracionistas, em toda a América Latina e no Caribe. Foram identificadas cerca de 47 mil publicações que difundiram informações incorretas ou enganosas sobre autismo em aproximadamente 1.600 grupos e canais abertos ao público. Nessas comunidades há 4 milhões de usuários. Os pesquisadores mapearam menções a mais de cem diferentes substâncias ou procedimentos para tratar autismo nos grupos de Telegram, sendo que o dióxido de cloro é de longe a indicação mais citada. Os dados mostram que o número de mensagens enganosas sobre o transtorno aumentou mais de 150 vezes em cinco anos.

A amostra analisada revela que as comunidades se organizam majoritariamente por país, mas há também evidências de articulação internacional. Cerca de 15 mil posts idênticos, parte em espanhol e parte em português, circularam em comunidades colombianas e brasileiras. Já o Chile divide quase 4 mil conteúdos iguais com a Colômbia e 3 mil com o México, e esses dois últimos países têm 5,4 mil posts em comum.

A investigação identificou, por exemplo, um post que circulou em um grupo chileno em 2021 e, em 2023, passou por comunidades da Colômbia e do México. No ano seguinte, chegou aos brasileiros. A publicação é um compilado de links com orientações sobre como usar dióxido de cloro.

Esta publicação passou em grupos dos quatro países envolvidos na investigação. Foto: Reprodução/Telegram

Outro exemplo é um convite no Telegram para entrar na comunidade em espanhol da norte-americana Kerri Rivera, que foi compartilhado em grupos dos quatro países entre 2021 e 2024. Rivera, famosa em grupos negacionistas da ciência, montou uma rede de negócios para promover o dióxido de cloro como tratamento para o autismo. Também foi encontrado um post em quatro países recomendando que crianças com autismo sigam o protocolo de Andreas Kalcker, outro defensor do uso da substância tóxica como medicamento.

A monetização da mentira

“Bom dia, pessoal. Ontem tomei três gotinhas ativadas de MMS e hoje tive diarreia e vômito. Isso é normal? Alguém mais teve essa reação?” A mensagem faz referência à sigla em inglês de Miracle Mineral Solution, ou Solução Mineral Milagrosa na tradução em português – uma espécie de nome fantasia para o dióxido de cloro –, e foi enviada por um dos cerca de 15 mil integrantes do grupo Brasil Brasileo no Telegram.

A comunidade se apresenta como um espaço para debater um “purificador de água ativado”, mas funciona como vitrine de falsos remédios à base do desinfetante. Apesar de ter recebido notificação do governo brasileiro para interromper a venda irregular da substância, a rede permanece ativa – além de canais no Telegram, sites de vendas e páginas alternativas.

Outro grupo está associado ao site Purifica o Brasil, no qual kits contendo dióxido de cloro são vendidos por até R$ 700. O site, que foi notificado pelo Ministério da Justiça em 2024 sobre a venda irregular do produto como medicamento, ainda promove seu uso como “ideal para protocolos intensivos e tratamentos mais prolongados”.

No Brasil, kits contendo dióxido de cloro são vendidos por até R$ 700. Foto: Reprodução/Internet

Somente depois que os checadores consultaram o governo sobre esse caso, o canal Purifica o Brasil foi removido do Telegram por violar as leis brasileiras. A empresa só agiu após receber notificação enviada pela AGU. O site com o mesmo nome, porém, continua ativo. Até ser derrubado pelo Telegram, o grupo propagava vídeos como o que ensinava a aplicar dióxido de cloro no nariz de uma criança e distribuía uma espécie de manual com passo a passo de como fazer um enema – injeção de líquido “desintoxicante” através do reto.

Outro site promovido em comunidades do Telegram tem no nome a fórmula do dióxido de cloro (ClO2), e também vende os falsos medicamentos. Provavelmente para evitar problemas legais, a página exibe a advertência de que “é importante lembrar que o dióxido de cloro não é recomendado para o tratamento de questões relacionadas à saúde”. Mesmo assim, no Telegram, onde a propaganda ocorre, o uso é abertamente indicado para tratar diversos problemas de saúde, entre eles o autismo.

Grupos ensinam pessoas a aplicarem enemas contendo dióxido de cloro em crianças e adolescentes autistas. Foto: Reprodução/Telegram

Site notificado pelo Ministério da Justiça no ano passado continua vendendo produtos anunciados falsamente como tratamento para autismo.  Foto: Reprodução/Telegram

No Mercado Livre, uma das maiores plataformas de comércio eletrônico do Brasil, foram encontradas ofertas de kits com dióxido de cloro para “tratamento de água”, apesar de a venda da substância no país ser autorizada apenas como desinfetante, em produtos de limpeza. O anúncio era internacional, com frete grátis para o Brasil. Procurada, a empresa informou que produtos à base de dióxido de cloro são proibidos no site e que removeu imediatamente o anúncio ao tomar conhecimento do conteúdo, além de notificar o vendedor, que está sujeito a banimento definitivo.

No Mercado Livre, uma das maiores plataformas de comércio eletrônico do Brasil, foram encontradas ofertas de kits com dióxido de cloro. Foto: Reprodução/Mercado Livre

Na Colômbia, o Telegram abriga o coletivo Veeduría Ciudadana por la Verdad (Fiscalização Cidadã para a Verdade), focado em compartilhar conteúdo antivacina e que relaciona os imunizantes como principal causa do autismo. Também há forte promoção do dióxido de cloro como tratamento. Tanto o grupo quanto a principal porta-voz dele, Cisalia Camacho, foram desmentidos diversas vezes pelo Colombiacheck por divulgar desinformação e teorias conspiratórias sobre diferentes assuntos.

Em outros grupos bastante ativos, o Protocolos e Suplementos de Saúde México e Colômbia CDS Trementina, são compartilhados vídeos com receitas para “reparar o intestino de crianças com autismo”. O porto-riquenho Gregorio J. Placeres Díaz, que se apresenta como químico aposentado, é figura comum nessas comunidades. Entre os protocolos que promove para tratar o autismo há um com microenemas de ivermectina de uso veterinário.

Outros vídeos divulgados em grupos colombianos são de médicos que desinformam principalmente sobre vacinas, como as argentinas Chinda Brandiolo e Alejandra Chiappano e a peruana Lida Obregón. A mexicana María del Pilar Mora frequentemente afirma que o autismo está relacionado a infecções parasitárias, toxicidade acumulada no sistema nervoso e falta de nutrientes. Ela se apresenta como autora de um método que consiste em modificar a dieta para “matar de fome” os parasitas, desintoxicar o sistema e usar vermífugos.

Em grupos chilenos que promovem tratamento do autismo também há indicações de compra de dióxido de cloro em sites que, na aparência, comercializam o produto para produção de água potável. O consumo como medicamento é sugerido de forma indireta, em depoimentos de clientes que afirmam ter “mais energia” ou relatam o uso da substância para eliminar vírus ou toxinas. Os preços das embalagens variam de 11 a 295 euros (cerca de R$ 70 a R$ 810). Também há comércio de kits para a fabricação caseira do dióxido de cloro.

No México, é comum que a desinformação parta não apenas de pessoas comuns, como nos demais países, ou dos “gurus” conhecidos mundialmente, como Kerri e Kalcker, mas também de celebridades do mundo do entretenimento. Uma delas é a apresentadora Verónica del Castillo, irmã de Kate del Castillo, uma conhecida atriz mexicana. Verónica se autodenomina um elo entre médicos dispostos a oferecer “terapia oxidativa” e a sociedade. Outro exemplo é Tanya Carmona, atriz mexicano-americana que alega que o filho autista foi curado com terapias integrativas.

Consultas e consultorias

Em quase todos os grupos monitorados, a oferta de produtos é acompanhada da venda de serviços, como consultas, cursos e consultorias. Um dos exemplos encontrados é o de uma pessoa no Brasil que oferece consultoria a quem não consegue fazer o “protocolo de desparasitação” sozinho. O atendimento é feito por mensagens no Telegram, por um valor que só é divulgado de forma privada. O “consultor” difunde e explora a ideia de que parasitas causam autismo. Os promotores dessa falsa tese recomendam protocolos que envolvem, além do dióxido de cloro, o consumo de vermífugos e até a aplicação de enemas.

Membros de grupos oferecem consultorias para “desintoxicação” sem comprovação científica. Foto: Reprodução/Telegram

Ao monitorar grupos no Telegram, os checadores encontraram links para entrar em comunidades no WhatsApp. Duas delas, mantidas por uma brasileira que se identifica como “Terapeuta Pri Gavazzi”, comercializam cursos para turmas que custam R$ 299 por pessoa. Ela oferece também consultoria “para um acompanhamento diário e individual, mais detalhado”.

A Roberta citada no começo desta reportagem recebeu um áudio de Pri Gavazzi quando revelou os efeitos da intoxicação por dióxido de cloro. “Tudo o que você relatou aí é consequência da sujeira que o corpo está pondo para fora e das toxinas do parasita que a solução está atingindo”, disse a autoproclamada terapeuta. “Então, não é a solução que fez mal, tá? O que aconteceu aí é não saber utilizar, não tomar as precauções e os devidos cuidados. (…) E o que a gente não quer é isso, que vai parar no hospital, a solução aí fica mal vista.”

Indiretamente, o Telegram monetiza a desinformação. Alguns canais analisados pelos checadores têm a aba “Similar Channels”, um espaço onde o algoritmo da plataforma recomenda canais similares, inclusive de promoção do uso do dióxido de cloro. Se um usuário assina a versão “premium” do Telegram, que custa R$ 15,90 por mês, a rede social desbloqueia mais 100 canais similares. Na versão gratuita, são apenas 10.

“Eles não têm um único filtro de algoritmo para limitar o que pode ou não ser apresentado nos canais similares”, destacou o pesquisador Ergon Cugler, coordenador do estudo da Fundação Getúlio Vargas que disponibilizou o banco de dados para a investigação. “Então, o Telegram ganha dinheiro com a disseminação desse tipo de conteúdo.”

O Telegram disse ao Verifica que fiscaliza conteúdos nocivos publicados na plataforma. “Moderadores equipados com ferramentas de IA personalizadas monitoram proativamente as partes públicas da plataforma e aceitam denúncias a fim de remover milhões de conteúdos nocivos todos os dias”. A empresa solicitou uma lista de grupos onde as mensagens foram localizadas.

Relatos pessoais e conspiracionismos

Para convencer suas vítimas a administrar protocolos sem comprovação científica, os desinformadores fazem uso frequente de mensagens que exploram a emoção de pais e responsáveis por autistas impactados pelo diagnóstico. Administradores desses grupos publicam supostos relatos pessoais para criar identificação e esperança. Há pessoas que afirmam ter superado o problema ou curado outras a partir de protocolos pseudocientíficos.

Um exemplo desses relatos é a postagem intitulada “testemunho de desparasitação e autismo”, publicado em um grupo da Colômbia. O texto, supostamente escrito pela mãe de uma criança de quatro anos, afirma que ela recebe um “protocolo de desparasitação” que inclui terebintina, um solvente inflamável obtido da destilação da resina de pinheiros. A mãe relata melhoras, mas afirma também que o filho apresentou convulsão após o tratamento e que expulsa “material orgânico de odor fétido e aspecto estranho”.

Vídeos com depoimentos alegando que pessoas autistas melhoraram ou foram curados pelos protocolos são comuns. Muitos deles têm pais ou responsáveis exibindo imagens de crianças e falando de suas experiências com os tratamentos. Nesse contexto, cria-se um ambiente impermeável a argumentos contrários, já que outros membros do grupo validam as falsas narrativas e pressionam pais e responsáveis hesitantes.

Quando há descrições de resultados negativos, o apelo ao sentimento de culpa é uma abordagem frequente. Administradores e usuários dos grupos apontam “erros” na forma de aplicar os protocolos se alguém fala de reação adversa ou piora de um quadro.

Outro argumento falacioso é o da “crise curativa”. O termo é usado em grupos que promovem medicina alternativa para descrever uma piora temporária dos sintomas. Segundo os promotores dessa ideia, a crise indica que o tratamento está funcionando.

A imagem a seguir mostra uma pessoa em um grupo brasileiro afirmando ter começado a dar CDS – outro dos apelidos do dióxido de cloro – para a filha de 10 anos. A mulher relata que a criança começou a tossir muito e sentir dor de garganta. Um dos administradores responde que isso ocorreu porque a pessoa cometeu dois erros: ter aplicado uma dose alta e preparado a solução em garrafa de inox.

Quando efeitos colaterais são relatados, outros membros do grupo apelam para o sentimento de culpa. Foto: Reprodução/Telegram

Outra pessoa, ao comentar sobre efeitos adversos, recebe como resposta que deveria ter feito primeiro um protocolo de adaptação. “Não adianta correr!”, diz o interlocutor. “Paciência sempre. O dióxido de cloro é usado no mundo inteiro em humanos e animais.” Até uma paciente de câncer foi orientada a seguir tomando o CDS, apesar de ter contado que se sentiu muito mal após a ingestão do produto.

Em resposta a um membro que relatou vômitos e mal-estar, o perfil administrador do canal Brasileo, no Telegram, afirmou que os sintomas seriam sinais de que o corpo estaria “atingindo parasitas” e eliminando toxinas de vacinas como a tríplice viral, apontada no grupo como causa do autismo.

O pesquisador Ergon Cugler, da FGV, afirma que a principal tática dos desinformadores para disseminar os conteúdos falsos e enganosos é fazer uma espécie de polinização de links de canais e grupos com temas afins, que englobam diversas formas de conspiracionismo.

“Por exemplo, se você entra em um canal de Nova Ordem Mundial porque viu um vídeo no YouTube engraçado sobre aquilo, de repente recebe links de canais sobre globalismo”, exemplificou. “Clicando em um desses links, você recebe outro de antivacina. E, a partir desse canal, você entra em um grupo que é de venda de medicamentos alternativos.”

Conforme o pesquisador, as principais portas de entradas para comunidades de off-label (administração de substâncias diferente daquela para a qual o produto foi aprovado por agências reguladoras) são grupos de ocultismo e esoterismo. “Mais do que usuários individuais que servem como tradutores entre os países, o que existe é uma rede fortalecida de conspiracionismo”, disse.

Cugler acrescenta que, quanto mais se acredita em uma teoria da conspiração, mais propenso se está a acreditar em outras. “De repente, você está convicto de que tem que tomar protocolo de desparasitação, dióxido de cloro, tudo o que você possa imaginar para supostamente curar o que a nova ordem mundial, pelos reptilianos, implementou nas pessoas da terra plana”, ironizou.

Parasitas e vacinas

Em comunidades online que promovem desinformação, não é incomum encontrar mensagens que falsamente associam autismo a infestações por parasitas. Entre as mensagens monitoradas há uma que alega que o transtorno seria decorrência do fato de o intestino estar “muito sujo”. Também é comum encontrar mensagens que relacionam o transtorno a vacinas – um mito que surgiu de um estudo científico fraudulento e que já foi desmentido por pesquisas sérias.

As imagens reproduzidas abaixo são exemplos de mensagens que, com alegações infundadas, estimulam o medo em relação às vacinas. A primeira, em espanhol, alerta que, desde o começo da vida, os bebês são “picados” com coquetéis químicos. A publicação afirma que os imunizantes contêm adjuvantes tóxicos que causam autismo e outras enfermidades, alegações amplamente desmentidas pela ciência.

Publicações acusam falsamente os adjuvantes das vacinas de causarem autismo. Foto: Reprodução/Telegram

A segunda mensagem, também em espanhol, afirma que uma criança desenvolveu autismo após receber 18 vacinas em um único dia, o que demonstraria a relação de causa e efeito. Esse boato, que também circula no Brasil, foi checado e desmentido pelo Estadão Verifica em 2024.

Boatos já desmentidos continuam circulando nas comunidades. Foto: Reprodução/Telegram

Nos grupos monitorados, a vacina tríplice viral, que previne sarampo, caxumba e rubéola, é descrita como capaz de deixar um “vírus parasita” no organismo ou de liberar supostos metais pesados, alegações desmentidas por especialistas e por reportagens do Verifica.

Elementos citados em conteúdos de desinformação, como timerosal e adjuvantes de alumínio, também não sustentam as narrativas antivacina: o primeiro foi retirado ou reduzido por precaução e nunca teve relação com autismo, e o segundo se mantém em níveis muito abaixo dos limites de segurança.

O neurocientista Victorio Bambini Junior, professor sênior da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, destaca que os componentes das formulações de vacinas são usados em quantidades muito pequenas, têm comportamento conhecido no organismo e são rapidamente eliminados.

“O que permanece é apenas a memória imunológica”, afirmou. Bambini lembrou que grandes estudos populacionais, como uma pesquisa dinamarquesa com mais de 650 mil crianças, além de análises do Institute of Medicine, do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a principal agência de saúde pública dos Estados Unidos, e da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram de forma consistente que não há associação entre vacinas e o transtorno do espectro autista.

Na mesma linha, Rafaella Fortini, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e especialista em vacinas da OMS, afirma que a ideia de um “vírus parasita” deixado por imunizantes não faz sentido. “Vacinas apresentam ao corpo uma versão inativada, enfraquecida ou um fragmento do vírus”, explicou. “Elas não têm capacidade de se instalar no organismo.”

Gregório Almeida, da Universidade Federal de Minas Gerais, destacou que os resíduos de vacinas são eliminados rapidamente, tanto nos imunizantes de vírus atenuados quanto nos de RNA. “Não há resíduo ativo circulando dias depois”, disse.

“Desde 1998, pesquisadores independentes de sete países realizaram mais de 40 estudos de alta qualidade envolvendo mais de 5,6 milhões de pessoas. A conclusão é clara e inequívoca: não há relação entre vacinas e autismo. Qualquer pessoa que repita esse mito prejudicial está mal informada ou tentando intencionalmente enganar os pais.” A declaração foi feita recentemente por Susan Kressly, presidente da Academia Americana de Pediatria.

A entidade, juntamente com outras dezenas de instituições médicas e científicas, protestou contra mudanças no site dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, que agora exibe a mensagem “Estudos científicos não descartaram a possibilidade de que as vacinas infantis contribuam para o desenvolvimento do autismo”.

A frase foi colocada no site por motivos políticos, não científicos. A determinação veio do Secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., o mais poderoso ativista antivacinas do momento. Recentemente, ele procurou conectar o desenvolvimento do autismo ao consumo de Tylenol durante a gravidez, outra alegação estapafúrdia sem qualquer respaldo científico.

A alteração da política do CDC é provavelmente o maior impulso à desinformação sobre vacinas e autismo desde a publicação de um estudo do gastroenterologista britânico Andrew Wakefield, em 1998. O estudo buscava apontar os imunizantes como causa do transtorno. Comprovou-se, posteriormente, que o médico utilizou dados falsos e contrariou princípios básicos da pesquisa científica para defender a teoria. A revista The Lancet, que publicou o estudo, fez uma retratação e reiterou que as conclusões eram falsas.

Vermífugos e minerais

O tratamento com dióxido de cloro é o mais recomendado nos grupos que espalham desinformação sobre autismo, mas há outros protocolos pseudocientíficos. A shungita, um mineral, é citada frequentemente no Chile. Já a terebintina aparece com frequência em posts na Colômbia.

No México, o monitoramento encontrou, entre as soluções divulgadas, dióxido de cloro, zeólita cálcica, astrágalo, prata coloidal, “ouro líquido” e dispositivos que prometem “alcalinizar” a água. Assim como em grupos brasileiros, responsáveis por crianças autistas recebem orientações para evitar médicos, esconder o uso desses produtos e interpretar reações adversas como supostos “processos de limpeza”.

No caso ilustrado abaixo, uma pessoa afirma querer fazer o protocolo de desparasitação com pamoato de pirantel, um vermífugo de uso veterinário. Ela pergunta se alguém sabe onde encontrar a versão para humanos do medicamento, e sugerem usar mesmo o remédio para animais, que seria “tão seguro quanto o de gente”.

Até medicamentos de uso veterinário são indicados nas comunidades. Foto: Reprodução/Telegram

Riscos para a saúde

O neurocientista Bambini explica que o dióxido de cloro é um agente oxidante altamente tóxico. “Não existe cenário seguro para seu uso terapêutico”, disse. A ingestão pode causar lesões severas no trato gastrointestinal, vômitos, diarreia intensa, queimaduras nas mucosas e desidratação, com impacto ainda maior em crianças.

Em mensagens monitoradas pelos checadores, é possível observar que sintomas como náusea, ardência, vômitos e diarreia são apresentados como sinais de “desintoxicação”, o que acaba normalizando reações que indicam início de lesões. De acordo com Bambini, esses sintomas refletem os danos imediatos que o dióxido de cloro pode causar. O efeito oxidativo do produto pode destruir células da boca, do esôfago e do intestino, além de provocar sangramentos, inflamação aguda e perdas rápidas de líquido. “A agressão às mucosas ocorre logo nas primeiras exposições”, afirmou.

O neurocientista ressalta que os riscos vão além do sistema digestivo. O dióxido de cloro compromete a capacidade do sangue de transportar oxigênio. Em níveis mais elevados, pode levar à perda de consciência e até à morte. Autoridades de saúde alertam ainda que o líquido pode afetar negativamente os rins e o fígado. Por isso, instituições como a Food and Drug Administration (FDA), a OMS, a European Medicines Agency (EMA) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbem o uso terapêutico do composto.

Pseudocientistas

Em geral, as figuras apresentadas como “especialistas” nas comunidades online não têm formação médica. Na Colômbia, o ColombiaCheck entrevistou um dos nomes mais citados nessas comunidades, Beyman Yepes Murillo, conhecido como Dr. Yepes. Ele admitiu não ser médico e alegou usar o título de “doutor” porque é “chamado assim pelas pessoas porque elas foram curadas”.

Yepes disse atuar há quase duas décadas oferecendo consultas virtuais baseadas nos protocolos de Andreas Kalcker e Jim Humble, criadores do MMS. O falso “doutor” relatou prescrever dietas restritivas, desparasitação, enemas e uso contínuo do dióxido de cloro, que descreveu como “inofensivo”.

Kerri Rivera, norte-americana que hoje vive no México, é uma figura de culto nos grupos que desinformam sobre o autismo. Em 2013, ela escreveu um livro que promove a alegada cura do transtorno com MMS e que foi removido de plataformas de venda por seu conteúdo enganoso. Rivera não é médica nem tem formação de cientista. Até monetizar a falsa cura com venda de livros, palestras e consultas, era corretora de imóveis.

Dióxido de cloro é um agente oxidante altamente tóxico. Foto: LatamChequea

Andreas Kalcker também é citado frequentemente nessas comunidades como fonte para respaldar as alegações. Ele foi mencionado como um dos maiores promotores do dióxido de cloro na América Latina na investigação A ciência que os promotores do dióxido de cloro realmente dominam, publicada por uma aliança de veículos, incluindo Colombiacheck, em 2022.

Procurado pelo Estadão Verifica, Kalcker alegou não afirmar que existe cura para o autismo no sentido tradicional, mas que “existem abordagens biofísicas que podem melhorar significativamente a qualidade de vida de muitas pessoas”. Kerri Rivera, Leo Araujo, Pri Gavazzi e o site Purifica o Brasil também foram procurados, mas não responderam.

No Brasil, vender dióxido de cloro é crime

No ano passado, o Ministério da Justiça no Brasil notificou dez sites de comércio eletrônico brasileiros que vendiam irregularmente dióxido de cloro como tratamento para o autismo e também para “inativar” vacinas – procedimento que só existe no mundo do charlatanismo. Mas alguns deles, como ClO2 e Purifica o Brasil, continuam no ar.

Apesar das proibições e de operações pontuais de fiscalização, o governo federal não sabe quantos produtos à base de dióxido de cloro circulam no país, quantas apreensões foram realizadas ou quantas notificações foram oficialmente abertas. As respostas enviadas por Anvisa, Ministério da Justiça, Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e Conselho Nacional de Combate à Pirataria (CNCP) revelam um cenário fragmentado: cada órgão detém apenas parte do processo, e nenhum deles mantém um registro nacional sobre esse comércio ilegal.

A Anvisa informou que atos normativos proíbem o MMS e a comercialização e propaganda da solução, mas reconheceu não haver números consolidados sobre apreensões. Com a descentralização do Sistema Único de Saúde (SUS), as ações de fiscalização e apreensão ficam a cargo das vigilâncias sanitárias municipais e estaduais, além de atuações do Procon e das polícias Civil ou Militar.

Paralelamente, a Anvisa pode aplicar sanções administrativas, como multas e apreensões, independentemente do que aconteça na esfera penal. Na prática, porém, a maior parte das ações de campo é feita pelas vigilâncias sanitárias municipais, que lavram autos de infração e abrem processos administrativos, mas não investigam crimes. Em nota, o Ministério da Justiça destacou que as notificações são apenas administrativas.

“Nossa atuação não gera processo criminal; isso só ocorre quando trabalhamos junto com o Decon (Delegacia de Proteção ao Consumidor)”, explicou Marcela Radaelli, fiscal da Vigilância Sanitária de Alvorada, no Rio Grande do Sul.

A Decon confirmou ao Verifica que o caráter criminal só se aplica quando a vigilância apreende o produto, identifica risco sanitário e encaminha o caso.

A Senacon, ligada ao Ministério da Justiça, que notificou as plataformas em 2024, também não possui dados específicos sobre denúncias relacionadas ao composto.

O caso do Brasileo, um dos grupos brasileiros monitorados pela reportagem, evidencia as limitações das medidas administrativas. Mesmo após ser notificado no âmbito do programa Saúde com Ciência, do Ministério da Saúde, a rede permanece ativa, com canais no Telegram, sites de vendas e páginas alternativas.

O governo admite que as notificações dependem do cumprimento voluntário das plataformas ou dos vendedores. Quando isso não ocorre, o CNCP pode encaminhar o caso para a polícia ou o Ministério Público, mas não há atuação coordenada entre as diferentes esferas.

A AGU informou atuar em ações de remoção de canais e combate ao comércio irregular dentro do programa, mas, assim como os demais órgãos, não apresentou dados consolidados sobre quantos perfis, páginas ou grupos foram derrubados.

Em nota, a Anvisa ressaltou que vender produtos sem autorização sanitária no país é crime, o que pode exigir a atuação das autoridades policiais quando necessário.

Na esfera penal brasileira, a venda de dióxido de cloro abre um leque de possíveis enquadramentos. O advogado criminalista Gelson Fassina afirma que os responsáveis podem responder por charlatanismo, curandeirismo e até crimes contra a saúde pública.

“Todos esses tipos penais podem ser aplicados, além de eventual associação criminosa”, disse.

Segundo ele, a venda de um produto terapêutico sem registro na Anvisa já configura crime, independentemente de haver dano à saúde do consumidor.

A gravidade aumenta quando há promessa explícita de cura. A criminalista Eduarda Garcia ressalta que o artigo 273 do Código Penal, que trata da comercialização de produtos terapêuticos sem registro, costuma ser o enquadramento mais robusto.

“É um dos crimes com pena mais alta do Código Penal”, apontou. Ela explicou que o charlatanismo (artigo 283) também pode ser aplicado quando alguém anuncia uma cura infalível.

Vendedores, influenciadores ou pais que estimulam uso de substâncias para finalidades não aprovadas podem ser responsabilizados. Foto: LatamChequea

A responsabilidade não recai apenas sobre quem vende. Nos grupos monitorados, usuários que se apresentam como terapeutas, influenciadores ou pais “experientes” atuam estimulando o uso das substâncias. Segundo Eduarda, essas pessoas podem ser responsabilizadas como partícipes ou coautores.

“Se contribuem para a prática, seja instigando ou orientando, podem responder penalmente”, disse.

No Brasil, os direitos das pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) são garantidos principalmente na Lei Berenice Piana. A advogada Pietra Gomes, especialista na defesa dos direitos das pessoas com autismo, alerta que o uso de tratamentos sem comprovação científica ou de medicamentos não aprovados pela Anvisa fere essas garantias previstas em lei.

“A legislação assegura que pessoas com autismo tenham acesso a cuidados de saúde seguros, como diagnóstico precoce, terapias com eficácia comprovada e acompanhamento multidisciplinar”, afirmou.

Segundo ela, intervenções baseadas em evidências e o acompanhamento médico regular são fundamentais para garantir o desenvolvimento pleno das pessoas com TEA.

No campo civil, a advogada Brunize Finger explica que a Lei Berenice Piana, combinada ao Estatuto da Pessoa com Deficiência, assegura proteção contra práticas abusivas.

Além das pessoas que anunciam falsas curas, as plataformas que hospedam esses grupos também podem ser responsabilizadas. Após decisão do Supremo Tribunal Federal em 2025, empresas como Telegram e sites de comércio eletrônico podem responder na Justiça se, após notificação extrajudicial, não removerem conteúdos manifestamente ilícitos.

“A omissão diante de risco concreto pode configurar negligência grave”, alertou Eduarda Garcia.

Brunize Finger ressalta que, no caso de anúncios pagos, a responsabilidade das plataformas é ainda maior, já que a plataforma avaliou e aprovou o conteúdo patrocinado ou vinculado.

Para famílias que compraram os produtos ou cujos filhos adoeceram após o uso, especialistas recomendam agir sem demora. Prints de conversas, números de telefone, links, comprovantes de pagamento e laudos médicos são fundamentais para sustentar uma denúncia.

A orientação é que a pessoa lesada procure a delegacia de crimes cibernéticos ou o Ministério Público, levando tudo que comprove a negociação e os danos. Informações sobre quem vendeu — como nome, CNPJ e endereço — também ajudam a acelerar as investigações.

A criminalista Eduarda aponta que ferramentas de captura certificadas, que garantem a autenticidade de conversas e anúncios, fortalecem o material probatório e evitam a contestação de prints simples.

 

FONTE: ESTADÃO

Esta investigação, realizada pela LatamChequea, a rede de verificadores latino-americanos, faz parte de “Os Desinformantes”, uma série de reportagens sobre grupos que espalham conteúdos enganosos na região. Foi realizada no âmbito do projeto “Promover informações confiáveis e combater a desinformação na América Latina”, coordenado pelo Chequeado e financiado pela União Europeia. Seu conteúdo é de responsabilidade exclusiva do Estadão Verifica, do ColombiaCheck, do Verificado e do Mala Espina, e não reflete necessariamente os pontos de vista da União Europeia.

 

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