Iniciativa destaca a necessidade de capacitação profissional e revela impactos acumulados em quem viveu anos sem entender sua própria neurodivergência
Um homem está de costas, parado no fim de um trapiche de madeira que avança sobre um grande lago. Ele usa uma jaqueta grossa cinza, uma mochila cinza nas costas, calça escura e botas marrons. O dia está nublado e frio. Ao redor do lago, surgem montanhas cobertas por floresta, parcialmente escondidas pela névoa.
A neurodiversidade ganhou um passo importante no Brasil. A sanção da Lei 15.256/25, que incentiva o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em adultos e idosos, coloca no centro do debate uma realidade muitas vezes invisível: a de pessoas que passam boa parte da vida sem entender plenamente sua própria forma de perceber o mundo.
A medida reconhece oficialmente que o autismo não é identificado apenas na infância — e que a ausência desse reconhecimento durante décadas pode gerar impactos emocionais e sociais profundos. Ansiedade, tentativas constantes de adaptação, sobrecarga sensorial e até o sentimento de “estar sempre fora do lugar” fazem parte da trajetória de muitos adultos que só recentemente começam a se enxergar dentro do espectro.
Para o professor e especialista em inclusão Nilson Sampaio, o diagnóstico tardio tem um efeito direto na construção da identidade. “Sem uma identificação formal, muitos adultos autistas passam anos tentando corresponder às expectativas sociais, acumulando frustrações e autocobrança”, afirma. Segundo ele, receber o diagnóstico depois de adulto não muda quem a pessoa é — mas muda a forma como ela se reconhece.
“O autoconhecimento que vem com o diagnóstico pode ser transformador”, explica Sampaio. “Permite olhar para si com mais empatia, adaptar rotinas, buscar estratégias e compreender limites. Isso tem impacto na vida profissional, nas relações familiares e na convivência social.”
A nova lei também traz para a agenda pública a urgência de capacitar profissionais para avaliar e acompanhar casos de TEA ao longo de toda a vida — e não apenas na infância. Para especialistas, esse é um passo determinante para garantir que adultos e idosos tenham acesso ao cuidado adequado e ao acolhimento que sempre lhes faltou.
Segundo Sampaio, muitos adultos não diagnosticados podem vivenciar ao longo de suas vidas:
- Camuflagem social: adotam estratégias para “se encaixar”, o que gera fadiga emocional e sensação de ser sempre “fora de lugar”;
- Sobrecarga sensorial: ambientes barulhentos, reuniões longas, estímulos visuais ou táteis podem ser extremamente desgastantes, sem que a pessoa entenda por que se sente diferente;
- Entraves no trabalho: dificuldade para manter foco, lidar com multitarefas ou adaptar-se a rotinas exigentes pode levar a esgotamento, baixa produtividade ou mudança constante de emprego;
- Relações interpessoais afetadas: sem entender sua neurodivergência, muitos adultos interpretam seus desafios como falhas pessoais, gerando isolamento, culpa e baixa autoestima.
Impacto do diagnóstico tardio
A jornalista Bruna Bozza, de 37 anos, recebeu há menos de um ano o diagnóstico de TEA, depois de uma vida inteira interpretada por rótulos equivocados. Cresceu sendo vista como “chorona”, “esquisita” ou “sem noção”, em uma época em que neurodivergência não era discutida. Seu primeiro diagnóstico veio aos 23 anos, na faculdade de Jornalismo, quando um professor percebeu sinais de TDAH e dislexia. Porém, as medicações disponíveis na época não funcionaram, e ela passou 13 anos lidando sozinha com comorbidades, exaustão e dificuldades sociais.
Em janeiro deste ano, ao iniciar uma nova medicação que enfim trouxe estabilidade ao TDAH, outros sintomas ficaram mais evidentes. Foi o início de uma investigação de nove meses, que envolveu testes, revisitar traumas, episódios de bullying e comportamentos que sempre estiveram presentes. O resultado foi o diagnóstico de TEA nível 1, associado a Altas Habilidades — combinação que finalmente organizou sua história. “O diagnóstico trouxe alívio, porque finalmente entendi quem eu sou. Mas também trouxe um luto profundo. O que mais me atravessa é o ‘e se…’. E se tivessem percebido antes? E se eu tivesse tido acolhimento? Enquanto os outros avançavam, eu gastava toda a minha energia apenas para sobreviver e parecer normal”, desabafa a jornalista.
Para Sampaio, os ganhos de um diagnóstico, ainda que tardio, são significativos. O especialista elenca algumas vantagens:
- Autoconhecimento e validação: entender que suas particularidades têm explicação neurológica ajuda a pessoa a se aceitar e a recontextualizar muitos episódios da vida;
- Acesso a intervenções e estratégias: com o diagnóstico, é possível buscar terapias focadas (ocupacional, psicológica, coaching neurodivergente), além de adaptações práticas no dia a dia;
- Rede de apoio: lançar mão de grupos, comunidades e redes de suporte específicas para autistas adultos ou idosos;
- Inclusão social e profissional: demandar e negociar adaptações no trabalho, na rotina e nos relacionamentos com base em necessidades reais, e não mais em “jeitos de ser difíceis”.
A nova lei e a urgência da ação
A legislação sancionada abre caminho para políticas públicas mais efetivas: capacitação de profissionais de saúde para diagnosticar TEA em qualquer fase da vida, campanhas de conscientização sobre autismo adulto/idoso, e estruturação de redes de atendimento multidisciplinar para apoiar neurodivergentes. “A lei é um passo fundamental, mas precisamos agora garantir acessibilidade real, ou seja, que adultos autistas tenham profissionais qualificados disponíveis, laudos acessíveis e políticas que apoiem sua singularidade. Diagnosticar é apenas o começo; o verdadeiro avanço será quando tivermos inclusão genuína”, destaca Sampaio.
Apesar do aumento dos diagnósticos e do acesso a conteúdos sobre neurodiversidade, o preconceito contra autistas de nível 1 de suporte ainda é frequente. Muitas vezes chamados de “autistas funcionais”, eles enfrentam uma carga silenciosa: conseguem viver em sociedade, mas às custas de intenso esforço para mascarar características naturais e se encaixar em padrões sociais. “Esse processo resulta em desgaste físico e mental, dores, inflamações e condições como ansiedade e depressão. Outro desafio é a percepção distorcida da população, que frequentemente desmerece ou desacredita do diagnóstico do autista de nível 1, alimentando piadas, desrespeito e ridicularização”, completa o especialista.
FONTE: BEM PARANÁ










