ENTIDADE CRITICA FALA DE TRUMP QUE LIGOU USO DE PARACETAMOL A AUTISMO

Afirmação do presidente dos EUA também foi rejeitada pela OMS

Donald Trump afirmou nesta 2ª feira (22.set.2025) que o uso do analgésico Tylenol por mulheres durante a gravidez está potencialmente ligado ao autismo em crianças. Durante pronunciamento na Casa Branca, Trump recomendou que os norte-americanos evitem ao máximo tomar o medicamento. “A FDA [Administração de Alimentos e Medicamentos, similar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária no Brasil] vai notificar médicos sobre o uso de acetaminofens [tylenol] durante a gravidez porque pode ser associado à alta no risco de autismo”, declarou o presidente a jornalistas.

A Associação Nacional para Inclusão das Pessoas Autistas (Autistas Brasil) divulgou nota em protesto contra declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que relacionou – sem apresentar qualquer estudo ou pesquisa – o nascimento de crianças com autismo ao uso de analgésicos e antitérmicos à base de paracetamol pelas mães no período de gravidez.

Em nota, o vice-presidente da Autistas Brasil, Arthur Ataide Ferreira Garcia, lembra que “até o momento, não há ensaios clínicos randomizados, metanálises robustas ou grandes estudos populacionais que apontem uma relação real” entre o uso do medicamento e caos de autismo.

Para Garcia, a fala de Donald Trump “é uma estratégia deliberada de transformar nossa condição [de autista] em um mal a ser combatido, uma cruzada capacitista em nome de um mundo supostamente mais normal.”

“Trump e Kennedy não estão apenas equivocados quando falam que o autismo é causado pelo uso de Tylenol, não é meramente um erro, é um projeto político. Estão reintroduzindo no século XXI a lógica eugenista que trata pessoas com deficiência como tragédia. O autismo se torna um vilão a ser combatido, e pessoas autistas são reduzidas a sujeitos desumanizados numa cruzada moral em nome de uma sociedade ‘pura’ e homogênea, sem lugar para aqueles tidos como ‘diferentes’, ‘estranhos’, ‘deficientes’”, afirmou Garcia.

Segundo a entidade, o aumento de diagnósticos de autismo observado nas últimas décadas não é epidemia nem crise de saúde pública, mas reflexo de maior acesso à avaliação e diagnóstico, especialmente entre grupos historicamente invisibilizados, como mulheres autistas e pessoas negras.

De acordo com o Ministério da Saúde, “o transtorno do espectro autista (TEA) é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por desenvolvimento atípico, manifestações comportamentais, déficits na comunicação e na interação social, padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados, podendo apresentar um repertório restrito de interesses e atividades”.

O Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) reconhece o autismo como deficiência e a Lei 12.764/2012 instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.

Agências internacionais de saúde também rebatem 

Informações de instituições importantes, como a revista científica Nature e a União Europeia, são de que paracetamol, ativo do Tylenol, é seguro, ao contrário de fala recente do presidente dos Estados Unidos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e agências internacionais de saúde rebateram, nesta terça-feira (23), declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que sugerem uma relação entre o uso de paracetamol, princípio ativo do medicamento Tylenol, durante a gravidez e o risco de autismo em crianças.

O porta-voz da OMS, Tarik Jasarevic, declarou em coletiva de imprensa que as evidências de uma associação entre o paracetamol e o autismo “continuam inconsistentes”. “Então, isso é algo científico, e essas coisas não devem ser realmente questionadas”, acrescentou, em coletiva de imprensa realizada em Genebra, na Suiça.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) afirmou que não há novas evidências científicas que justifiquem alterações nas recomendações atuais sobre o medicamento. “As evidências disponíveis não encontraram nenhuma ligação entre o uso de paracetamol durante a gravidez e o autismo”, destacou também o órgão em comunicado.

Fabricante também alerta sobre informação divulgada pelo presidente

A fabricante do Tylenol, Kenvue, disse no início deste mês que havia se envolvido em um “intercâmbio científico” sobre o assunto com autoridades do Departamento de Saúde dos EUA e pediu que mulheres grávidas conversassem com seu médico antes de tomar qualquer medicamento de venda livre.

“O paracetamol [princípio ativo do Tylenol] é a opção mais segura de analgésico para gestantes, conforme necessário, durante toda a gestação”, afirmou a empresa em um comunicado no domingo (21).

“Sem ele, as mulheres enfrentam escolhas perigosas: sofrer com condições como febre, que são potencialmente prejudiciais à mãe e ao bebê, ou recorrer a alternativas mais arriscadas.”

“Os fatos são que mais de uma década de pesquisas rigorosas, endossadas por importantes profissionais médicos e reguladores globais de saúde, confirmam que não há evidências confiáveis ​​que vinculem o paracetamol ao autismo. Apoiamos os muitos profissionais de saúde pública e médicos que revisaram essa ciência e concordam.”

 

 

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