Com boas ou más intenções, criadores de conteúdo muitas vezes promovem desinformação sobre condições médicas e respectivos tratamentos
Se antes, ao menor sinal de quaisquer tipos de sintomas, recorríamos ao Dr. Google para saber quando e como iríamos partir desta pra melhor, e quais medicamentos poderíamos engolir, injetar, inalar para evitar a morte precoce, agora é no reputadíssimo TikTok que adolescentes e jovens adultos buscam informações sobre saúde mental, que quase sempre terminam em autodiagnóstico de condições como TDAH e autismo.
Psicólogos, pais e mães estão preocupados (se não estão, deveriam estar). Estudo recente aponta que menos da metade do conteúdo sobre TDAH na plataforma se alinha com critérios diagnósticos oficiais, e mais de 70% dos vídeos populares sobre autismo são imprecisos ou excessivamente generalizados.
Essa busca por respostas rápidas, alimentada por algoritmos e pela facilidade de acesso, acende um alerta sobre os perigos da desinformação e os riscos de tratamentos inadequados.
A propagação da desinformação na rede
Desde seu lançamento em 2016, o TikTok se consolidou como uma fonte primária de informação para milhões de usuários, incluindo notícias e comentários políticos, e agora, saúde comportamental. Embora a plataforma, nos melhores momentos, tenha lá seu papel na desestigmatização das condições de saúde mental e na promoção de comunidades de apoio, a qualidade geral do conteúdo é questionável. Muitos criadores de conteúdo não têm credenciais profissionais na área da saúde mental, baseando suas publicações em experiências pessoais (ou na enganação pura e simples).
A arquitetura da rede, com seus vídeos curtos e de fácil assimilação, não é ideal para a veiculação de informações complexas e baseadas em pesquisas, que exigem nuances. Os algoritmos da plataforma priorizam conteúdos polêmicos ou surpreendentes, o que exacerba o problema. Além disso, os usuários tendem a se engajar com vídeos que confirmam suas visões preexistentes, criando “câmaras de eco” que reforçam o autodiagnóstico. Pesquisas mostram que indivíduos que se autodiagnosticaram com TDAH no TikTok se sentiram mais convictos de sua condição após assistir a vídeos populares sobre o tema, enquanto aqueles que não se identificavam com o diagnóstico se tornaram menos certos de sua ausência.
As consequências e o papel dos profissionais
A epidemia de autodiagnóstico não pode ser atribuída apenas aos usuários; barreiras no acesso a cuidados de saúde mental de qualidade, como longas filas de espera e dificuldades com planos de saúde, impulsionam a busca por informações online. Adolescentes, em particular, encontram no TikTok e em outras redes sociais um senso de identidade e pertencimento, elementos cruciais para essa fase de desenvolvimento.
No entanto, o autodiagnóstico acarreta riscos significativos. Pode levar à identificação incorreta de sintomas e, consequentemente, a tratamentos inadequados ou atrasos na obtenção de ajuda profissional. Psicólogos, com sua formação especializada, integram histórico, observação e testes para chegar a um diagnóstico preciso, algo que o autodiagnóstico raramente consegue replicar. Além disso, há o perigo de não identificar comorbidades ou diagnósticos alternativos, já que muitas condições de saúde mental são multifatoriais e frequentemente coexistem.
Segundo Mara Whiteside, neuropediatra e professora-assistente na Universidade de Arkansas para Ciências Médicas, os clínicos devem abordar pacientes com empatia, validando suas preocupações sem desqualificá-las. É fundamental que os profissionais ofereçam psicoeducação de alta qualidade, indicando recursos validados, e promovam o letramento digital para que os pacientes possam avaliar criticamente o conteúdo online. A crescente influência do TikTok na percepção da saúde mental exige uma resposta atenta e informada tanto dos usuários quanto dos especialistas.
Fonte: O Antagonista (Gustavo Nogy)










